Snuff Movies é uma lenda urbana da década de 70 que falava de filmes produzidos por realizadores underground e que eram vendidos no mercado negro como se fossem drogas ou armas. Estes filmes mostravam pessoas, em geral mulheres, em o que parece ser inicialmente um filme pornográfico, no entanto o auge da cena era a tortura e assassinato da pessoa. Nunca foi provado que estes filmes realmente existiram, mas ninguém duvida que uma crueldade como essa seja plausível.
Com esta premissa, a companhia Vigor Mortis construiu a base de seu novo espetáculo, Snuff Games, uma história de crueldade e manipulação. Freddy Duran(Leandro Daniel) é um ex advogado, agora proprietário da boate Love Games Nightclub. Ele prefere chamar assim, embora outros possam chamar o lugar de casa de recurso, açogue, baixo merê ou bordel. Em seu estabelecimento trabalham ainda a gerente Ursula Undress(Mariana Zanette), uma decadente ex-atriz de filmes pornográficos; Suellen Silva(Rafaella Marques), a mais procurada prostituta da casa que acaba de passar no vestibular de odontologia, e finalmente Nalbert(Anderson Faganello), um cameraman e técnico em eletrônica de atitudes estranhas.
A Love Games recebe clientes ilustres que, insatisfeitos com as suas aventuras sexuais, encomendam a Freddy uma série de vídeos com suas "funcionárias". Um destes vídeos acaba saindo mais pervertido do que se esperava, mas os seus clientes, ávidos por experiências extremas, pagam valores altíssimos pela fita. A partir daí os personagens começam a se mostrar cada vez mais brutais e ambiciosos. No entanto, seus planos podem ser frustrados, como em um blefe de pôquer. Não existe amizade. Não existe lei. Apenas pessoas baratas.
Snuff Games é definida pelo diretor Paulo Biscaia Filho não como uma peça de teatro, mas como se fosse uma música "lado B" de sua montagem anterior, Morgue Story - Sangue, baiacu e quadrinhos. Em outras palavras, ela não se apresenta como a capa do disco, mas como seu acompanhamento: mais estranho, mais pessoal e mais experimental.

Como na montagem de Morgue Story, a Vigor Mortis continua trazendo para o palco o resultado de pesqusias sobre o Grand Guignol, o histórico Teatro de Horror de Paris, mescladas ainda a projeções multimídia e alinhavadas por uma narrativa cinematográfica. A referência de dramaturgia e encenação de Snuff games usa dois gêneros cinematográficos: o film noir da década de 40 e os filmes pornográficos dos anos 70 e 80. "Nos filmes noir os personagens apresentados nas histórias são sempre amorais, ambiciosos e cruéis e mesmo os mais puros guardam segredos inimagináveis", define o diretor, "Os criminosos nunca agem com culpa ou remorso. Eles são a representação do que há de mais cruel na humanidade. Do outro lado, os filmes pornográficos apresentam belas pessoas igualmente sem culpa e felizes em sua lascívia. Nos dois casos, os personagens parecem agir como guiados pelo mais primitivo instinto, mas suas ações são extremamente calculadas e racionais. Estes elementos servem como linha mestre na narrativa de Snuff Games. Ao fim da apresentação, o público se vê como uma curiosa testemunha de atos hediondos. Uma testemunha que reconhece os crimes, mas que também se sente excitada... com ou sem culpa."
A montagem se passa quase que inteiramente no escritório de Freddy, o dono do bordel. Na primeira cena, ele está de costas para o público, mas vemos na boca de cena sua projeção de frente. Estamos vendo seu ponto de vista, seu olhar lascivo e promíscuo. Sabemos então que a partir dali tudo é possível. Não existem restrições religiosas, legais ou morais. É um escape derradeiro. Uma fuga libertária que pode vir com efeitos colaterais para quem deseja embarcar.

A montagem foi produzida independentemente pelos integrantes da Vigor Mortis que, após uma excelente processo de criação em Morgue Story, decidiu manter os trabalhos e a "química". "Não é todo dia que se forma um grupo tão unido, integrado e com uma capacidade singular de completar o pensamento um do outro. Eu tinha que continuar com essa Jam Session.", diz Biscaia fazendo referência ao grupo como se fosse uma banda de rock.
O que se mantém também no espírito da Vigor Mortis é o desejo de uma comunicação diferenciada com o público."Em Morgue Story eu disse que queria fazer uma peça para quem não gosta de teatro", diz Biscaia, "Muita gente disse que isso era só provocação e publicidade. Pode ser também, mas eu levo esse pensamento muito a sério como forma de integrar linguagens no palco. Eu até poderia fazer um filme de Snuff Games, mas certamente não ficaria tão satisfeito com o resultado geral. O ator integrado com a projeção causa uma empatia com o público que me interessa profundamente"





