“Entre 1897 e 1962, atrocidades inomináveis foram cometidas numa pequena capela no número 20 bis da Rue Chaptal em Paris.  Vítimas foram baleadas, esfaqueadas e estupradas. Sob os olhos estáticos das estátuas de anjos e santos, pessoas tiveram seus olhos arrancados, sua pele queimada com ácido  e seus corpos mutilados. Todos estes
crimes foram testemunhados noite após noite por centenas de pessoas que desejavam loucamente ver toda essa violêrncia e horror. O endereço acima refere-se ao Théâtre du Grand Guignol, construído sobre a capela de um convento fechado. Os crimes apresentados em palco obviamente não eram reais, apesar de parecerem derramar sangue de verdade. O Teatro abriu suas portas no dia 13 de abril de 1897, fundado por um militante Naturalista, Oscar Méténier, no entanto, o gênero de horror consagrado pelo Grand Guignol seria estabelecido apenas alguns anos mais tarde com O espetáculo "Le Système de Docteur Goudron et Professeur Plume", uma adaptação de um Conto de E.A. Poe  



Durante os anos vinte, um novo nome se transformou em lenda nos palcos do Grand Guignol.  Durante os anos em que o teatro estava sob a direção do visionário Camille Choisy, Paula Maxa, conhecida apenas como "Maxa" fez sua estréia nos palcos de sangue. Esta bela atriz era dotada de uma voz perfeita para o horror, o tom de sesu gritos era único e aterrorizante.  Esta atriz carrega estatísticas no mínimo curiosas. Em palco, Maxa gritou "Socorro" 983 vezes, "Assassino!" 1263 vezes, além de ter sido estuprada mais de 3000 vezes e assassinada mais de 10000 vezes das mais diversas formas. Alguns exemplos: cortadas em 93 pedaços e depois "colada" de volta, esmagada por um rolo-compressor, devorada por um puma, rasgada por um caixeiro viajante que "precisava"de seus intestinos, queimada viva, etc... 


Os anos dourados do Grand Guignol aconteceram durante os anos sob a direção de Camille Choisy.  Infelizmente, este período ficou restrito apenas à década de 20, mas o Grand Guignol pemaneceu vivo, ou morto-vivo, até 1962 apresentado apenas remontagens sem graça das produções de Choisy e de Max Maurey, o verdadeiro criador do gênero de horror no teatro. A platéia também não estava tão interessada mais em ver cenas de horror após a segunda guerra mundial, quando toda a Paris era placo de atrocidades. A indústria cinematográfica também se colocou sobre o teatro, mesmo que cenas violentas como as do Grand Guignol só foram aparecer nas telas após a década de 60. Mesmo assim, o legado do Grand Guignol não pode ser deixado de lado. Não se trata de um gênero exclusivamente baseado em efeitos especiais e sangue falso. Para fazer o Grand Guignol, deve-se ter uma perfeita compreensão de timing do medo, afim de manipular com maestria as emoções da platéia. André de Lorde, o principal dramaturgo do Grand Guignol, escreveu certa vez: "As fontes de medo são variadas, mas o medo em si será sempre o mesmo, eterno e imutável".

O texto acima é adaptado a partir da tese de mestrado “The Horror of The Grand Guignol”, de Paulo Biscaia Filho para a Royal Holloway University of London, 1995